Entrevista com o advogado criminalista Gelson da Costa: “A advocacia criminal é uma missão de transformação social”

Campo Grande/MS, 3 de setembro de 2025.

Por redação.

Advogado Gelson Eduardo Santos da Costa fala ao O Garantista sobre sua trajetória, desafios como jovem negro e propostas para tornar o sistema de justiça criminal mais inclusivo
Filho de um motorista e de uma empregada doméstica, Gelson Eduardo Santos da Costa é o primeiro da família a conquistar um diploma de ensino superior. Formado em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande (MS), ele atua desde 2021 na advocacia criminal, área que escolheu por entender como um espaço de luta por direitos fundamentais e transformação social. Nesta entrevista ao O Garantista, Gelson fala sobre sua trajetória, desafios como advogado negro e os caminhos para tornar o sistema de justiça criminal mais justo e inclusivo.

Entrevista
O Garantista: Há quanto tempo você atua na área criminal?
Gelson Eduardo Santos da Costa: Eu me formei em 2014. Depois da minha formação, fui trabalhar em um órgão público que me impedia de exercer a profissão de advogado. Exerço a advocacia efetivamente há uns três ou quatro anos.
O Garantista: O que o levou a escolher a área criminal?
Gelson: Na verdade, a área criminal sempre foi um atrativo desde a faculdade. Embora hoje haja outros segmentos na área civil, tributária e administrativa que acho muito interessantes, a criminal é apaixonante. É uma área que permite lutar por direitos. Não que as outras não sejam, mas essa traz uma experiência muito profunda: você está resolvendo a situação de uma pessoa que muitas vezes está encarcerada e não sabe para onde correr. E você consegue solucionar aquela situação momentaneamente, o que não atinge só ela diretamente, mas a família como um todo. Acho isso muito interessante.
O Garantista: Como advogado negro, quais foram os principais desafios que você enfrentou para atuar na área criminal no sistema de Justiça de Mato Grosso do Sul?
Gelson: Na condição de negro, sem partir para o princípio do vitimismo, atuar na área criminal é desafiador. É preciso provar não só para você mesmo, mas para os outros, que sua capacidade não está na cor da sua pele, mas na sua capacidade intelectual, no que você lê, escreve, busca em outras fontes. Embora as pessoas muitas vezes não acreditem, o racismo estrutural ainda é patente e evidente. A primeira reação, muitas vezes, quando vou atender um cliente ou recebo um contato por WhatsApp sem foto é de surpresa. Quando me veem pessoalmente, pensam: “um negro vai me atender, será que ele tem capacidade?”. Minha capacidade não está atrelada à cor da minha pele.
O Garantista: Na sua experiência prática, como analisa o racismo estrutural dentro do sistema penitenciário sul-mato-grossense?
Gelson: O racismo estrutural é uma questão histórica, daí o termo estrutural. Embora existam mecanismos para combatê-lo, as pessoas ainda não têm essa consciência plena. Elas têm consciência porque há uma imposição do Estado, que considera o racismo crime. No entanto, faltam políticas de informação sobre isso, especialmente em Mato Grosso do Sul. O Brasil inteiro é tomado pelo racismo, mas o Estado pode adotar providências por meio de políticas públicas. Se você vai para a Bahia, o nível de racismo é um; se vai para outros estados, é outro. É uma questão cultural e regional.
O Garantista: Que mudanças seriam necessárias para tornar o sistema de justiça criminal mais justo e inclusivo – tanto para advogados quanto para réus?
Gelson: Acredito que há muito o que mudar. Por exemplo, começando pela própria instituição da OAB. Uma atuação mais efetiva por parte da OAB, sem esse viés muito político, seria muito interessante para os advogados, com fiscalização mais rigorosa, especialmente das prerrogativas no sistema penitenciário. Muitas vezes somos submetidos a olhares desconfiados. O Estado poderia fornecer uma segurança mais efetiva para o advogado.
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