ARTIGO: ´´Vigiadas, perseguidas, controladas: a face oculta do stalking´´

Campo Grande/MS, 20 de agosto de 2025.

Por Fabiana Trad e Tais Trad.

“Every breath you take / Cada suspiro que você der / And every move you make / E cada movimento que você fizer / Every bond you break / Cada laço que você quebrar / Every step you take / Cada passo que você der / I’ll be watching you / Eu estarei te observando.”
A música, escrita em 1983, traduz o pesadelo vivido por 77 mil pessoas em 2024, sendo 85% delas mulheres. São vítimas de stalking, crime previsto na legislação que entrou em vigor em 2021.
Os dados mostram que a raiz do problema é muito mais profunda. Não por acaso, as mulheres são as principais vítimas. Isso se deve, sobretudo, a fatores culturais e sociais enraizados em nossa sociedade, como o machismo e a estrutura patriarcal.
Segundo Alessia Micoli (2012), a conduta do stalker pode ser compreendida da seguinte forma:
“Um amor que, para o próprio stalker, demanda um gasto de energia que cansa moral e fisicamente; é um amor alienante, baseado em sentimento de inadequação, carências, vergonha e insegurança. […] Há pensamentos físicos e mecanismos psicológicos que indicam que aquilo que ele vive deve ser experienciado pela própria vítima; ansiedade, agitação, autodesvalorização, medo, insegurança, amor, preocupação e tensão contínua. […] O stalker procura destruir psicologicamente a vítima, pois tem a convicção de que ele também foi psicologicamente destruído por ela; por esse motivo, os stalkers se sentem vítimas de suas próprias vítimas” (MICOLI, 2012 apud GERBOVIC, 2016, p.22).
Trata-se de uma obsessão que beira a patologia, uma tentativa de controle e de criação de narrativas que sempre têm o mesmo objetivo: a posse da vítima.
O crime de stalking, diferente de outros relacionados à violência doméstica, possui uma particularidade: as ameaças nem sempre são ostensivamente agressivas.
Podem manifestar-se através de poesias, músicas, mensagens, e-mails ou cartas, que se tornam verdadeiros agouros psicológicos para as vítimas. Ainda assim, trata-se de violência.
São diversos os relatos e estudos que analisam esse tipo de comportamento: o agressor tenta controlar a vítima através da violência, que se ramifica em diversas modalidades. A mais nefasta delas é a psicológica: quase invisível por fora, catastrófica por dentro.

O primeiro passo para enfrentar essa situação é reconhecer-se como vítima. Apesar das barreiras impostas pelo sistema patriarcal e machista, sempre existem caminhos possíveis: a denúncia é um deles. Reconhecer o problema não é apenas um ato de coragem, mas o primeiro passo rumo à reconstrução da própria voz, à retomada da autonomia e à afirmação da dignidade. É o momento em que a vítima deixa de ser silenciada e começa a escrever novamente a própria história, reclamando seu direito inalienável à segurança e, principalmente, ao respeito.