Do ensino à prática: a trajetória de duas pioneiras da advocacia criminal em Campo Grande

Campo Grande/MS, 16 de julho de 2025.

Por redação.

Em um tempo em que a presença feminina na advocacia criminal era quase uma exceção, duas jovens advogadas decidiram contrariar estatísticas e romper barreiras. Rejane Alves de Arruda e Andréa Flores iniciaram suas trajetórias profissionais ainda nos anos 1990 e, duas décadas depois de fundarem o escritório que leva seus nomes, são hoje referência no Direito Penal em Mato Grosso do Sul.

A sociedade Alves de Arruda & Flores completa 20 anos de atuação, resultado de uma parceria construída sobre pilares que sempre nortearam as duas profissionais: ética, técnica e coragem. Mais do que sócias, Rejane e Andréa se consolidaram como protagonistas de uma geração que transformou o papel da mulher na advocacia criminal da região.

A história que une Rejane e Andréa começa de forma paralela, ainda nas salas da antiga FUCMT, onde ambas cursaram Direito. Rejane iniciou sua graduação em 1991 e, já em 1995, conciliava a formatura com o início da docência. No ano seguinte, começava a lecionar Direito Processual Penal (disciplina que viria a marcar sua trajetória). Foi também nesse período que iniciou seu mestrado em São Paulo, na PUC/SP, viajando semanalmente de ônibus para manter a formação acadêmica sem abrir mão da atuação em Campo Grande.

Do outro lado, Andréa também dava os primeiros passos na advocacia. Iniciou o curso em 1990 e, paralelamente, cursava Letras na UFMS. Lecionou português e espanhol durante a graduação, enquanto estagiava na Defensoria Pública, experiência que a marcou profundamente. “Durante a faculdade, dei aulas de português e espanhol, fui estagiária da Defensoria Pública e ali tive minha maior referência profissional. Doutora Nancy Gomes de Carvalho, uma gigante do júri, que colocava em prática os Direitos Humanos, pois a quem entrasse em sua sala, a sua cordialidade era a mesma, fosse um magistrado ou um réu”, lembra.

Com o tempo, ambas se viram seduzidas pelo universo do Direito Penal. Rejane foi incentivada por professores e colegas a aprofundar sua atuação na área criminal, enquanto Andréa, após uma breve tentativa de se preparar para concursos públicos, entendeu que sua vocação estava na junção entre sala de aula e tribunal.

O primeiro encontro profissional das duas ocorreu no Núcleo de Prática Jurídica da UCDB, onde atuavam como orientadoras na área penal. A afinidade teórica e prática logo se transformou em admiração mútua. Em 2005, a parceria foi oficializada: nascia o escritório Alves de Arruda & Flores.

À época, o cenário ainda era pouco receptivo à atuação de mulheres na advocacia criminal. “Éramos pouquíssimas”, lembra Andréa. Mesmo assim, ambas seguiram firmes, dividindo-se entre a docência em instituições como UCDB, UNIDERP, UNAES e ESMAGIS, e a atuação em processos complexos, incluindo júris populares e defesas emblemáticas.

Ao longo da carreira, tanto Rejane quanto Andréa enfrentaram casos que testaram sua técnica, ética e sensibilidade. Andréa relembra dois episódios que definiram sua atuação profissional: um cliente que, antes de cometer um assalto, procurou orientação jurídica, e outro, acusado injustamente de estupro, que passou oito meses preso até ser absolvido.

Rejane, por sua vez, destaca o apoio que recebeu de figuras como o professor Antônio Carlos Garcia de Queiroz, que a levou ainda estagiária ao Tribunal do Júri. Também agradece aos colegas e professores que a incentivaram a seguir na advocacia, mesmo sem ter um histórico jurídico na família.

“Tenho a convicção de que, embora não tenha tido o privilégio de ter alguém da família como advogado, contei com a generosidade de muitos que, na proporcionalidade de suas ações, contribuíram para a minha formação”, afirma.

A atuação de Rejane e Andréa ultrapassa as fronteiras do escritório. Elas ajudaram a formar gerações de profissionais, sempre reforçando a importância de uma advocacia ética, combativa e comprometida com as garantias constitucionais.

Hoje, aos 30 anos de formada, Rejane resume sua trajetória: “olho para trás e reconheço o real significado da frase que diz: “Se vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”.”

Ela mesma, ao lado de Andréa, tornou-se um desses ombros para tantas outras mulheres que hoje se firmam na advocacia criminal em Mato Grosso do Sul.

Ao refletir sobre os desafios éticos e emocionais da profissão, Andréa destaca a importância de manter os limites da atuação advocatícia bem definidos, principalmente em um campo tão delicado quanto o Direito Penal.

Segundo ela, é essencial que a sociedade compreenda que a atuação do advogado está vinculada à técnica, à ética e à legalidade, e não à promessa de desfechos.

“Precisamos deixar sempre claro na advocacia que, ao pegarmos uma causa, estamos oferecendo um serviço, o melhor serviço que a técnica e a ética podem oferecer, mas não podemos vender e garantir resultados”, pontua Andréa.

Na mesma linha, ela ressalta que o exercício da advocacia criminal exige não apenas preparo jurídico, mas uma dose diária de coragem e resiliência frente à exposição pública e aos preconceitos ainda tão presentes no imaginário social.

“O que posso garantir é que a advocacia criminal é para os corajosos, pois muitas vezes teremos que enfrentar a opinião pública e aqueles que desconhecem os fatos e os autos, mas se sentem, mesmo assim, capazes de julgar e condenar. Com certeza, somos os advogados que gozam de menor prestígio. Por outro lado, acredito, piamente, que a área criminal só segura o verdadeiramente vocacionado.”

Mais do que uma profissão, a advocacia criminal, como revelam as experiências de Andréa e Rejane, é um exercício constante de firmeza ética, compromisso com os direitos fundamentais e resistência às pressões externas que cercam cada causa.

Duas décadas depois da formação do escritório, o que se vê é uma trajetória construída com solidez, enfrentando desafios com resiliência e ajudando a transformar o perfil da advocacia criminal no Estado. Rejane e Andréa não apenas abriram portas, como mantêm-nas abertas para as novas gerações.