Campo Grande/MS, 23 de abril de 2026.
Artigo por Tiago Bana Franco.
Entre o crime, a fé e a revolução, um escritor russo desnudou aquilo que nenhuma ideologia consegue corrigir: o homem.
Há épocas que acreditam em si mesmas com fervor quase religioso. O século XIX foi uma delas. Embriagado pelas revoluções e pelos avanços técnicos, passou a sustentar uma ideia sedutora: a de que a humanidade, reorganizada racionalmente, marcharia inevitavelmente rumo a um estado superior de justiça e felicidade.
A promessa era simples — e, por isso mesmo, poderosa. Bastaria corrigir as estruturas. Bastaria ajustar a sociedade. Bastaria confiar no progresso.
Foi contra essa fé que escreveu Fiódor Dostoiévski.
Enquanto muitos celebravam o futuro, ele voltou-se para o único lugar onde o problema realmente estava: o homem. Não o homem idealizado das teorias, mas o homem real — contraditório, livre, capaz tanto do bem quanto do mal.
Em Crime e Castigo, esse drama assume forma concreta. Raskólnikov mata para provar uma ideia: a de que certos homens, por sua grandeza, estariam acima da lei moral. Não é o crime de um bruto, mas de um teórico. Ele tenta justificar o assassinato como um meio para um fim superior.
Dostoiévski não se limita a condenar o ato. Ele destrói a própria lógica que o sustenta. Porque, no fim, não há teoria capaz de proteger o homem de si mesmo. A consciência resiste. Corrói. Cobra. Não há como ocupar um lugar acima do bem e do mal sem que esse próprio lugar desmorone.
A redenção, quando surge, não é uma vitória intelectual. É uma rendição.
Em Os Irmãos Karamazov, o problema deixa de ser apenas moral e se torna absoluto. Deus, liberdade, sofrimento — tudo entra em jogo. Ali, não há respostas fáceis.
Ivan Karamazov, talvez o mais inquietante dos personagens, não nega Deus por leviandade, mas por revolta. Ele recusa um mundo em que inocentes sofrem. Sua objeção não é superficial — é devastadora. E dela nasce uma consequência incômoda: se não há fundamento último, se não há limite transcendente, então a própria ideia de dever se fragiliza.
Não como frase de efeito. Como abismo.
Aliócha, por outro lado, não resolve o dilema com argumentos, mas com vida. Representa a possibilidade — não a prova — de que a resposta esteja fora dos sistemas, na experiência concreta da fé, da responsabilidade e do amor.
Dostoiévski não fecha a equação. Ele a deixa aberta. E é isso que torna o romance insuportavelmente honesto.
Mas é em Os Demônios que sua crítica ganha contornos proféticos.
Aqui, já não se trata apenas do indivíduo ou de suas angústias. Trata-se da política. Da tentativa de reconstruir o mundo a partir de ideias.
Dostoiévski nos leva para dentro de grupos revolucionários e expõe o que ali se move: não apenas ideais, mas ressentimentos; não apenas projetos, mas a disposição de destruir tudo o que não se submete ao plano.
A promessa é grandiosa: refazer a sociedade, eliminar as injustiças, criar um mundo novo.
O método, porém, revela o custo: tudo pode ser sacrificado em nome desse futuro — inclusive o próprio homem.
E é aqui que a crítica se torna incômoda. Porque Dostoiévski não está apenas falando do seu tempo. Está falando de uma tentação permanente: a de acreditar que, reorganizando o mundo, resolveremos aquilo que não conseguimos resolver em nós mesmos.
Essa é a mentira da redenção coletiva.
Não se trata de negar que existam injustiças, nem de defender a imobilidade histórica. Trata-se de algo mais profundo — e mais desconfortável: reconhecer que nenhum sistema, por mais sofisticado que seja, elimina a possibilidade do mal.
Porque o mal não é apenas estrutural. É humano.
E, se há redenção, ela não é produto de engenharia social. Não é automática. Não é garantida.
Ela é pessoal. Difícil. Incerta.
É por isso que Dostoiévski continua a incomodar. Porque, enquanto muitos ainda acreditam que o mundo pode ser consertado por fora, ele insiste em lembrar que o problema — e também a única possibilidade de solução — continua sendo o homem.







