MATO GROSSO DO SUL: A TERRA DOS CORONÉIS?

Campo grande/MS, 8 de setembro de 2026.

Artigo

Autor: Paulo Marcos Esselin – Professor titular aposentado da UFMS

Neste início do período pré-eleitoral, assistimos diariamente a uma sucessão de discursos e impropérios de candidatos em busca de votos. Alguns chegam ao ponto de transformar categorias funcionais em supostas classes sociais. Há pouco tempo ouvimos a expressão; classe dos políticos: Agora surgiu outra: classe dos vereadores; daqui a pouco, talvez inventem até um novo modo de produção.

Esses são justamente aqueles que pretendem representar a população no senado, na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa e no Governo do Estado.

Convém lembrar que vereador, deputado, senador, governador e presidente da República não constituem classes sociais. São funções públicas temporárias exercidas no âmbito do Estado. O ocupante desses cargos pode ser empresário, trabalhador, profissional liberal, servidor público ou produtor rural. A condição funcional não altera sua posição de classe.

Sob a perspectiva da Sociologia, as classes sociais são definidas pela relação dos indivíduos com os meios de produção — terras, indústrias, empresas, máquinas e capital — e não pelo cargo político que eventualmente ocupam.

A mais recente inovação conceitual partiu de um jornalista, que criou a curiosa expressão; coronelismo por tempo de serviço; segundo essa lógica, qualquer pessoa com sessenta e quatro anos de vida pública automaticamente se transformaria em coronel; independentemente de sua trajetória política, de suas posições ideológicas ou das causas que tenha defendido.

Vale recordar a conhecida advertência atribuída ao escritor H. L. Mencken: “Para cada problema complexo existe uma solução simples, clara e errada”. Historicamente, o coronelismo possui significado bastante definido. Refere-se ao sistema político característico da República Velha, baseado no poder concentrado de grandes proprietários rurais que controlavam a economia local, influenciavam eleições e exerciam forte domínio político e social sobre suas regiões.

Esses chamados; coronéis; mantinham sua influência por meio do clientelismo, do empreguismo, do compadrio, do favoritismo político, da barganha eleitoral e, em muitos casos, da violência. As populações indígenas, os negros e os trabalhadores rurais conhecem bem essa realidade histórica.

Foi justamente nesse contexto que o jornalista publicou um vídeo nas redes sociais atribuindo a condição de; coronéis; ao falecido advogado Nelson Trad e ao seu filho, o advogado e professor universitário Fabio Trad.

Ambos construíram suas trajetórias como profissionais liberais e professores universitários, não sendo historicamente identificados como integrantes da elite fundiária que caracterizou o coronelismo clássico.

A declaração surgiu após entrevista concedida por Fabio Trad, então pré-candidato ao Governo do Estado, na qual afirmou ser necessário retirar do poder grupos políticos que, segundo sua avaliação, ainda preservariam práticas, costumes e estruturas associadas ao coronelismo, especialmente ligadas à concentração fundiária e ao exercício tradicional do poder político.

Em resposta, o jornalista sustentou que os verdadeiros; coronéis; seriam membros da família Trad, argumentando que Nelson Trad exerceu atividades políticas por longo período, desde a década de 1960, enquanto o atual governador possuiria trajetória política mais recente.

Entretanto, a trajetória de Nelson Trad merece ser analisada em seu contexto histórico: “Quando integrou a chapa de Antônio Mendes Canale como candidato a vice-prefeito de Campo Grande, não possuía vínculos com o latifúndio ou com a política rural tradicional. Ao contrário, participava da defesa das Reformas de Base propostas pelo governo de João Goulart, entre elas a Reforma Agrária.”

Importante destacar que: “em razão de sua atuação política e da defesa de trabalhadores rurais e camponeses, foi preso, perseguido e teve seus direitos políticos cassados após o golpe civil-militar de 1964, retornando à atividade política apenas com a redemocratização.”

Durante mais de duas décadas enfrentou as consequências da repressão política. Entre suas atuações profissionais está a defesa do padre Francisco Jentel, reconhecido por sua atuação em favor de camponeses e povos indígenas na região do Araguaia.

Já em relação ao governador Eduardo Riedel, sua trajetória pública possui origem distinta. Está profundamente vinculada à representação institucional do agronegócio. Antes de ingressar na administração estadual, presidiu o Sindicato Rural de Maracaju, posteriormente a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) e integrou a direção da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Foi durante sua gestão na Famasul que ocorreu o episódio conhecido como Leilão da Resistência; realizado em meio aos conflitos fundiários envolvendo produtores rurais e comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul. O evento gerou ampla repercussão nacional e intensa controvérsia, pois foi apresentado como iniciativa destinada à arrecadação de recursos para fortalecer a reação de produtores rurais diante dos processos de demarcação de terras indígenas. Trata – se de decisão que podemos caracterizar como eminentemente coronelista. À época, críticos sustentaram que os recursos poderiam estimular a contratação de segurança privada armada e a intensificação dos conflitos, enquanto representantes do setor rural defenderam tratar-se de uma mobilização em defesa do direito de propriedade.

Independentemente das interpretações políticas sobre aquele episódio, trata-se de um marco relevante para compreender a origem política do atual governador e sua identificação histórica com os interesses organizados do setor agropecuário.

Essa vinculação também se manifesta no debate sobre as prioridades orçamentárias do Estado. Segundo dados das leis orçamentárias e dos demonstrativos fiscais, as renúncias de receitas tributárias destinadas principalmente ao setor do agronegócio alcançam aproximadamente R$ 11,95 bilhões, montante superior ao orçamento conjunto destinado a áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública, que gira em torno de R$ 9 bilhões. Trata-se de um dado que alimenta o debate público acerca das prioridades fiscais adotadas pelo Estado e da distribuição dos recursos públicos.

Neste debate público, é legítimo discutir o peso político do agronegócio, das políticas de incentivos fiscais, da concentração fundiária e da influência econômica exercida por determinados setores sobre as decisões do Estado. Da mesma forma, é legítimo questionar a distribuição dos recursos públicos e seus impactos sobre áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública, desde que tais discussões estejam fundamentadas em dados objetivos. Ao final, cabe ao eleitor avaliar os argumentos apresentados por cada lado e formar seu próprio juízo.

Encerro lembrando uma frase de George Orwell que continua atual “A função do jornalista é publicar aquilo que desagradar ao poder; o resto é propaganda”.