Campo Grande/MS, 17 de setembro de 2026.
Artigo por Fabiana Trad.
17 dias para a eleição. 17 dias em que os cidadãos brasileiros terão a responsabilidade de escolher seus próximos representantes. 17 dias para a escolha daquele que será o Presidente do nosso país.
Neste lapso temporal, arrisco-me a dizer que ocorre um dos mais graves escândalos judiciários da história recente do país, com risco iminente à própria Constituição Federal, justamente pelo fato de que aqueles que deveriam resguardá-la assumem, agora, um inquietante papel de desconfiança perante a própria população.
Há, porém, Cármen Lúcia. Uma mulher. A única mulher no Supremo Tribunal Federal.
E esta mulher, diferentemente de muitos, sequer apareceu nas investigações. Não trocou mensagens com Vorcaro. Não há, até aqui, notícia de que tenha se curvado às conveniências que orbitam o poder.
Ainda assim, diz-se consternada, envergonhada, triste. E com razão. Como todos os brasileiros que, diante do que assistem, encontram-se igualmente tristes, inconformados e, sobretudo, inseguros.
Não pelas atitudes de Cármen, repito: a única mulher. Mas pelas atitudes de alguns de seus colegas.
Este texto não se trata de menosprezar ou rebaixar homens, mas de refletir sobre aquilo em que a sede pelo poder é capaz de transformar o ser humano. Existe limite ético diante da fonte do poder? Alguns pix ali, conversas aqui, cargos e promessas vantajosas acolá. Tudo pelo poder.
A vida não se move pela construção de vilões, muito menos de heróis, mas por humanos. Humanos que constroem e reconstroem caráter, moral e ética; que, diante das circunstâncias e das tentações que lhes são apresentadas, revelam os limites da própria consciência e a solidez (ou a fragilidade) dos princípios que afirmam carregar.
Há também as rupturas. E estas surgem, na maioria das vezes, da mesma sede pelo poder, quando aquilo que deveria ser limite transforma-se em obstáculo e aquilo que deveria ser dever transforma-se em conveniência. Para os que se maculam pela ausência de caráter, torna-se impossível enxergar a dimensão daquilo que carregam: o peso do cargo, o peso da toga e, sobretudo, o peso da Constituição.
Consternados também estão os trabalhadores brasileiros que despertam quando o sol ainda nem nasceu, preparam a marmita enquanto a casa dorme e atravessam cidades ainda escuras para entregar mais um dia de suas vidas à construção deste país. Os que esperam pelo primeiro ônibus da manhã e, muitas vezes, pelo último da noite; os que contam moedas ao fim do mês, escolhem qual conta pode esperar, enfrentam filas, pagam impostos e aprendem, desde muito cedo, que para eles quase nunca haverá atalhos.
Consternada também está a mãe que deixa o filho ainda adormecido para trabalhar e retorna quando o dia já terminou. Também está o pedreiro que ergue prédios nos quais talvez jamais possa morar. A professora que ensina sobre cidadania em uma sala de aula enquanto ainda espera que a República cumpra aquilo que escreveu para ela na Constituição. O agricultor que trabalha a terra, o enfermeiro que atravessa a madrugada, o motorista que conduz desconhecidos para casa enquanto a sua própria família o espera. Brasileiros anônimos, cujos nomes jamais ocuparão as páginas dos grandes processos, mas sobre cujos ombros repousa, todos os dias, o peso real deste país.
A Constituição não pertence aos homens que vestem a toga, aos palácios ou aos gabinetes. Pertence à mulher que espera o ônibus antes do amanhecer, ao homem que carrega nas mãos as marcas do trabalho, à mãe que conta o dinheiro antes de entrar no mercado. Pertence aos milhões de brasileiros que jamais atravessarão as portas do Supremo, mas que, todos os dias, mantêm de pé o país que a Constituição prometeu proteger.
Ministra Cármen Lúcia, estamos todos consternados.







