Absolvida após seis anos presa, jovem morre de câncer dois meses depois e expõe falência do sistema penal brasileiro

Campo Grande/MS, 03 de novembro de 2025.

Por Tais Trad

A morte de Damaris Vitória Kremer da Rosa, aos 26 anos, revela a face mais cruel da Justiça brasileira: um sistema que prende antes de julgar, nega tratamento, demora a decidir e destrói vidas mesmo depois de reconhecer a inocência.

Damaris Vitória Kremer da Rosa tinha 26 anos quando morreu, em outubro de 2025, vítima de um câncer no colo do útero. Dois meses antes, ela havia sido absolvida pelo Tribunal do Júri de Salto do Jacuí, no Rio Grande do Sul, após passar quase seis anos presa preventivamente por um crime que a Justiça, por fim, reconheceu que ela não cometeu. Sua história escancara a face mais cruel do sistema penal brasileiro: um sistema que prende antes de julgar, que adoece antes de fazer justiça e que, por sua morosidade e descaso, condena inocentes à morte sem sentença.

Damaris foi presa em agosto de 2019, acusada de envolvimento no homicídio de um homem em Salto do Jacuí. Segundo a denúncia, ela teria atraído a vítima até o local do crime para que outros dois homens o assassinassem. A defesa, no entanto, sempre sustentou que a jovem não participou do homicídio e que apenas relatou ao namorado ter sido estuprada pela vítima, o que teria motivado o crime. Mesmo sem provas consistentes de sua participação, ela permaneceu presa por anos, aguardando o julgamento que só ocorreria em 2025.

Durante o período em que esteve encarcerada, Damaris começou a apresentar sintomas de problemas ginecológicos graves, como dores abdominais e sangramentos constantes, mas teve seu pedido de liberdade negado repetidas vezes. As autoridades alegavam falta de laudos médicos suficientes para comprovar doença grave. Quando o diagnóstico de câncer no colo do útero foi finalmente confirmado, o quadro já era irreversível. Em março de 2025, o juiz concedeu prisão domiciliar, mas a liberdade chegou tarde demais. O corpo de Damaris já não resistia.

Em 13 de agosto de 2025, o júri popular a absolveu com a tese de negativa de autoria. Era o reconhecimento tardio de uma inocência que ela clamava havia anos. Setenta e quatro dias depois, Damaris morreu em casa, vítima de um câncer que avançou sob os olhos de um Estado que falhou em todos os seus deveres.

O caso de Damaris não é exceção — é regra em um país onde a prisão preventiva se tornou punição antecipada e onde a lentidão judicial é sinônimo de crueldade. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, cerca de 40% da população carcerária brasileira é composta por presos provisórios, que ainda não foram julgados. São milhares de pessoas aguardando decisões que demoram anos, muitas vezes em condições insalubres, sem acesso à saúde, à dignidade e à esperança.

O cárcere brasileiro é o retrato da seletividade penal. Prende-se o pobre, a mulher, o periférico. A presunção de inocência, princípio constitucional, é substituída por uma presunção de culpa. A prisão, que deveria ser a última medida, é tratada como regra. O resultado é um sistema falido, que não reabilita, não previne e, em casos como o de Damaris, mata.

A morte de Damaris é mais do que uma tragédia pessoal: é um símbolo do colapso de uma justiça que falha em proteger os mais vulneráveis e se omite diante da dor humana. Ela foi punida sem sentença, libertada quando já não havia tempo para viver e absolvida quando a reparação já não fazia sentido. O Estado que a encarcerou sob o argumento de garantir a ordem pública foi o mesmo que lhe negou tratamento médico, o mesmo que silenciou diante de seu sofrimento, o mesmo que a libertou apenas para que morresse em casa, livre, mas derrotada.

O caso levanta uma questão que o Brasil insiste em ignorar: quantos mais terão o mesmo destino até que o sistema penal seja repensado? Quantos inocentes precisarão morrer antes que se reconheça que punir antes de julgar é a forma mais covarde de injustiça?

Damaris morreu com a ficha limpa, mas com o corpo devastado e a vida interrompida por um erro institucional que não pode ser reduzido a um caso isolado. Ela é o rosto de um sistema que adoece porque não enxerga o ser humano por trás do processo. Sua morte é um lembrete doloroso de que, neste país, a pena começa antes da culpa — e muitas vezes termina antes da vida.