Caso Orelha: A barbárie que o dinheiro tenta esconder

Por Fabiana Trad e Tais Trad.

Em dezembro de 2025, uma adolescente foi detida após furtar alimentos em um mercado. Não houve indignação coletiva, nem editoriais, nem comoção. Houve apenas o gesto automático do Estado: conter, conduzir, registrar, punir. Um caso que quase não repercutiu (como tantos outros) e que, justamente por isso, revela mais sobre o país do que gostaríamos de admitir.

Em 14 de janeiro de 2026, na cidade de Buri (SP), duas pessoas maiores de idade foram presas e um adolescente apreendido por furto em supermercado. Em Paranaguá, no litoral do Paraná, três adolescentes tiveram o mesmo destino. Já em 9 de dezembro de 2025, duas adolescentes de 17 anos foram detidas em Chapecó (SC), também por furto de alimentos. Datas diferentes, cidades diferentes, a mesma história: a fome atravessando a porta giratória da repressão penal.

Todos os episódios seguem um roteiro conhecido: nenhuma reflexão sobre o que levou até ali, nenhuma pergunta sobre o fracasso anterior do Estado, apenas a resposta imediata e violenta de sempre. São casos que passam quase despercebidos porque estão inseridos em um sistema que naturalizou punir a pobreza e criminalizou a sobrevivência.

Muito diferente, por exemplo, do caso do cão comunitário conhecido como Orelha.

Ali, não se trata de necessidade. Trata-se de escolha. Adolescentes de famílias abastadas, filhos de empresários, mutilaram e torturaram até a morte um ser vivo indefeso. Não foi impulso, não foi desespero, não foi fome. Foi método. Foi sadismo. Foi crueldade.

O crime só ganhou visibilidade pela pressão das redes sociais (essa forma moderna e imperfeita de controle social). E ainda assim, é preciso dizer: essa pressão não pode cessar. No Brasil, o esquecimento também absolve.

A velocidade com que crimes são investigados e punidos no país varia conforme o sobrenome, o CEP e o saldo bancário de quem está no banco dos réus. Esse fenômeno tem nome: justiça de duas velocidades.

Para os pobres, a justiça costuma ser rápida em prender e lenta em julgar. Para os ricos, é lenta para investigar, resistente para acusar e, muitas vezes, inexistente para punir. O processo vira ritual vazio: não serve para apurar, não serve para punir, não serve para reparar. Serve apenas para consumir o tempo até que o crime, cansado de existir, morra por prescrição.

De um lado, adolescentes que furtam para comer.
De outro, jovens que torturam, mutilam e matam, por puro sadismo, um animal indefeso.

De um lado, a detenção instantânea. O crime? A fome.
Do outro, coações, ameaças, bastidores em movimento e passagens compradas para longe.

Fossem pobres, já estariam algemados, expostos e triturados pela máquina penal. Mas são filhos da elite.

E, por isso, têm o ´´apoio´´ irrestrito dos genitores: afastam testemunhas, silenciam quem viu, constroem versões e compram rotas de fuga para Disneylândia sob o discurso cínico da “proteção”. Não protegem os filhos. Amparam a impunidade.

Que Orelha encontre a paz.
E que o sistema, um dia, encontre a coragem de merecer o nome de Justiça.