ARTIGO: Ficaram a beca e as lições

Campo Grande/MS, 26 de novembro de 2025.

Artigo por Matheus Morandi.

Ontem, em mais um dia como advogado, atuando em sustentação oral perante a 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul, foi impossível conter a emoção ao lembrar do meu pai, o advogado Mário Morandi. Era a minha primeira vez naquele plenário sem a presença física dele.

Logo ao chegar, vieram à mente todas as vezes em que caminhei ao seu lado por aqueles corredores, buscando justiça para nossos representados. Lembrei-me de quantas vezes ele utilizou aquela mesma tribuna e, com sua habilidade e humanidade, mudou a história e o destino de tantas pessoas.
Em meio a tantas lembranças, restou apenas o silêncio — e a saudade, que me acompanhará pelo resto da vida.

Quando entrei no plenário, pela primeira vez na advocacia senti medo. Um medo que nasceu da ausência do meu fiel escudeiro, que não estava mais neste plano para me acompanhar nas trincheiras da advocacia criminal.
Após concluir minha sustentação, recebi cumprimentos dirigidos a mim e a ele. O Desembargador Luiz Cláudio Bonassini da Silva, além de estender um abraço ao meu pai, exaltou sua militância como advogado criminalista, reconhecendo o legado que ele deixou naquela tribuna.

Por um instante, pensei em informar ali mesmo, naquela tribuna, sobre seu passamento. Mas preferi deixá-lo vivo naquele momento, como ele sempre foi naquele lugar onde tanto honrou a advocacia.

Meu pai era um criminalista nato, desses que conquistam grandes resultados sem fazer barulho, sem sentir a necessidade de se divulgar, apenas pelo trabalho por meio da técnica jurídica apurada, pela serenidade e pela profundidade do estudo. Por isso ganhou o respeito de inúmeros operadores do Direito; magistrados, promotores e delegados de polícia e assim por diante que sempre reconheceram nele um profissional sério, competente e leal à missão da advocacia.

O Dr. Mário Morandi deixou muitos legados, como pessoa e como profissional. Como advogado, demonstrou que a honestidade supera qualquer interesse que caminhe ao lado da desonra. Ensinou que a advocacia, além de meio de vida, é instrumento para servir aqueles que anseiam pela justiça.

Durante toda a sua caminhada, mostrou que, para ser um grande advogado, não é preciso usar o melhor terno,possuir o melhor carro ou ter o escritório mais imponente. Basta amor ao estudo e fé inabalável na justiça como valor essencial ao ser humano.

Ensinou também que a simplicidade vence qualquer vaidade, que a discrição e a cordialidade abrem portas que o orgulho insiste em fechar. Soube entrar e sair de qualquer lugar, sempre deixando portas abertas.

Meu pai deixa saudades profundas e lembranças inesquecíveis no coração de todos que tiveram a honra de conviver com ele. Mas deixa, sobretudo, ensinamentos — ensinamentos que hoje fazem falta a uma sociedade cada vez mais carente de humanidade, ética e simplicidade.