ARTIGO: A cafonice da elite

Artigo por Thiago Bana Franco.

O recente episódio envolvendo o Banco Master revelou, como tantos outros antes dele, as intrincadas teias de influência que aproximam políticos, magistrados e empresários no Brasil. Nada de particularmente novo nisso. O país, afinal, sempre cultivou uma certa intimidade entre poder e conveniência. O que surpreende, porém, não é a proximidade — mas o figurino.
Nas fotografias que circulam pela imprensa, o que se vê é um curioso desfile de símbolos de luxo: charutos grossos, copos pesados de uísque caríssimo e relógios como os da venerável Patek Philippe, exibidos com a solenidade de quem acaba de descobrir que existe vida além do relógio digital. Tudo muito caro, tudo muito reluzente, tudo, digamos, extraordinariamente cafona.
Não se trata de condenar o gosto alheio. Cada qual tem direito às suas extravagâncias. O problema começa quando o luxo deixa de ser prazer e passa a ser uniforme. Aquele charuto não é fumado pelo tabaco, mas pelo preço. O uísque não é apreciado pelo aroma, mas pela etiqueta. O relógio não mede o tempo; mede a vaidade.
O fenômeno é conhecido desde que o economista americano Thorstein Veblen o descreveu, no século XIX, como “consumo conspícuo”: gastar para que os outros vejam que se pode gastar. É o luxo como megafone social. Em sociedades mais antigas, onde a posição social já está sedimentada há séculos, a riqueza costuma sussurrar. No Brasil, ela prefere gritar. E grita ainda que tenha sido adquirida por meios… pouco ortodoxos.
Talvez isso explique por que nossas elites parecem sempre em permanente estreia. Falta-lhes aquela segurança silenciosa que caracteriza as aristocracias tradicionais. Como não possuem castelos medievais, genealogias longínquas ou bibliotecas herdadas, compensam com aquilo que é mais fácil de mostrar: objetos caros.
Há algo de tragicômico nesse espetáculo. Magistrados, empresários e políticos posam como personagens de um catálogo de luxo recém-descoberto. Tudo é excessivo, tudo é ostensivo, tudo é cuidadosamente fotografado — como se o poder precisasse de prova material.

No fim das contas, o escândalo talvez revele menos sobre corrupção — que infelizmente já conhecemos — e mais sobre estética social. O problema do Brasil não é apenas moral ou institucional. É também um problema de gosto. E, nesse quesito, nossa elite insiste em provar que riqueza não compra aquilo que os franceses chamam, com certa crueldade, de classe.